quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A beber gin tonic com o elefante

Parece impossível. Preciso de uma passagem precisa dos Contos do Gin Tonic, do Mário Henrique Leiria, e nada. Nem uma passagenzinha. Encontrei a rima da nêspera que estava deitadinha à espera e, obviamente, páginas biográficas e, sobretudo, bibliográficas - o que me deixou a salivar, confesso. Na verdade, leio e releio cada estocada em forma de conto desta hilariante carga de profundidade subversiva há 1000 anos :), e até acho que um tom daquela negrura rubbed-off on me - num plano de percepções mais do que manifestações, entenda-se. Li sempre o mesmo exemplar, de uma das primeiras edições, comprado já rabiscado e devidamente dedicado numa feira por um amigo especial da minha irmã, que lho emprestadou. Ela saiu e deixou para trás os livros, para ela, talvez, coisa de miúda solteira, e o Gin e os seus magníficos Contos integravam o espólio. E digo com alguma tristeza, logisticamente imposta, que fiz o mesmo: saí e deixei os meus livros. Volta e meia, resgato alguns. Vou almoçar e regresso a casa com dois ou três velhos amigos, que se juntam em lugares nobres aos camaradas mais novos, que entretanto já povoaram cada estante e prateleira da casa. Os mais especiais. Mas tenho saudade de todos. Incluindo, voltando ao busílis, o meu exemplar do referido impropério intelectual. Dizia eu que já me chegou e velho já seria só no tempo em que está nas minhas mãos. E com muita rodagem: desde cedo com galopantes sinais de decadência, as páginas voaram sem ordem específica em muitas e muitas noites da minha adolescência e early-twenties. Conhecia os Contos de cor, portanto deleitava-me, com a expectativa e com a acção, como a escolher bombons de uma caixa, o que me apetecia ler. E outro. E outro.*Até o cansaço atenuar a minha ansiedade juvenil. 
A partir de uma certa altura, as páginas começaram a voar literalmente. Todo o abre e fecha, dobra, sublinha, marca, dorme debaixo da almofada, e geral bom e digno uso para um livro teve reflexo na sua integridade estrutural. Mas não não foi isso nem os simples 20, ou 30, ou, agora, 40 anos de gloriosa existência que explicam o estado geral de miséria do exemplar.
Já trazia traças. Ou o que seriam traças, pois o pobre livro foi voraz, penosa e completamente devorado ao longo dos anos. Começaram buraquinhos numas páginas, mais páginas e mais buracos e buracos maiores e 20 anos depois o livro desapareceu.
Nunca vi as traças. Nenhum dos outros livros, com os quais sempre esteve em contacto, teve o mesmo problema.
E para que é que eu precisava da passagem, afinal? Às vezes, com quase qualquer livro, acontece-me ser só porque sim, porque calhava mesmo bem ler aquele bocadinho naquele momento. Mas hoje surgiu por associação a alguém (curiosamente, a minha irmã) que assinalava a perda de uma ovelha no facebook (não interessa). E surgiu-me a imagem do elefante desaparecido, que depois do colapso, entre a confusão da tragédia, surgiu na varanda, a beber gin tonicos, junto à cadeira de palhinha, que também tinha desaparecido. Disse-lhe que se calhar a ovelha dela estava com o elefante desavergonhado e vim para aqui.**

*Outros livros combateram nesta luta, como capacetes azuis numa missão de peacekeeping que durou anos. O Werther, uma antologia do Neruda e outra do Eugénio de Andrade, O Principezinho, entre outros, envelheceram ao meu lado, na mesa de cabeceira.
** Reconquistar o blog O menino e o caixote, que já tivera no passado e apagara, juntamente com todo o seu conteúdo (nem me lembro qual, devia ser bom...). Fica então este renascido menino e reciclado caixote um depositório das minhas histórias com livros. (Dito assim parece parvo. Mas não encontro outra forma, é isto mesmo.) Naturalmente, O Menino e o Caixote é o título de um dos Contos do Gin Tonic.