sexta-feira, 24 de maio de 2013

Chá em Ajudá, lusco fusco em Kinshasa e pôr do sol em Tibau do Sul


Olhando para um qualquer mapa de pequena escala, Tibau do Sul, Rio Grande Norte, fica mais ao menos à latitude de Kinshasa, Zaire, do outro lado do Atlântico. Latejantemente famosos pelos seus skectchs e textos cómicos, os Gatos Fedorentos colocaram o nome de Kinshasa no vocabulário de qualquer jovem com televisão e um sentido de humor em Portugal através da rábula sobre um empresário, não da noite mas do lusco-fusco – alegadamente cinco a sete minutos de grande potencial de divertimento, como comprovava o caso de Kinshasa, capital de nível mundial onde a indústria do lusco-fusco gozava de franco desenvolvimento.
Curioso, reparo eu, enquanto desespero muda com os últimos raios de sol às 17h de um dia de Janeiro e com os bafos quentes emanados pelo mapa que abre O Vice-Rei de Ajudá,de Bruce Chatwin, que repousa numa mão adormecida, enquanto a outra segura só porque sim uma chávena de chá que já esteve quente. Também em Tibau do Sul, logo ali, na margem oposta à mais pequena largura de Atlântico, o lusco-fusco representa um momento especial do dia e, obviamente, um pretexto para fazer negócio.
A creperia da Lagoa de Tibau consiste numa cabana com esplanada, totalmente em madeira, e ergue-se com optimista placidez sobre a água da lagoa numa estrutura precária encostada à ravina de areia e de peso assente em estacas de madeira que perfuram a lama salobra e vão sobrevivendo à vida submersa – pois o nível da água da lagoa tem subido nos últimos anos – e às fortes correntes das marés que empurram fora e dentro as águas da lagoa para o mar, através da abertura que fica a algumas centenas de metros da creperia, para leste. Sentada na esplanada – chão de madeira, mesas tortas de tábuas imperfeitas e bancos bamboleantes de madeira igualmente irregular, vendo a água debaixo dos pés através dos espaços entre as tábuas carcomidas do chão e toda a extensão da lagoa, desde a entrada ao mar até ao afunilamento que desemboca numa zona mais larga, com mangais, praias, pequenas ilhas, aves –, ignoro ‘brasileiramente’ os abanões da estrutura a cada onda que bate, barco que atraca no ancoradouro mesmo ao lado ou pessoa de maior estatura que se mexa ou arraste um banco, e começo a salivar no instante e que a garçonette me entrega a carta de crepes e sumos. Qualquer lanche na creperia é mágico: o cenário é idílico e chama-nos para um dia seguinte de descoberta. Os crepes, uma maravilha. Mesmo a calhar, especialmente depois de um dia de praia, alimentado apenas a fruta fresca cortada e aguinha de côco. Mas mais que os crepes ou a visão e a tranquilidade do corpo de água, magnífico, reluzente com o sol do fim da tarde, irrequieto, sempre visivelmente maré acima ou maré abaixo, barcos de pescadores rústicos, aves de aspecto esguio e eterna pose fotogénica e um ocasional golfinho a passar (sim, tenho uma foto), é a visão da outra margem da lagoa, mais precisamente de uma pequena península que alimenta o famoso lusco-fusco da Lagoa de Guaraíras. À medida que o sol se aproxima do seu leito,mesmo por detrás da ponta proeminente da península, a cobertura de coqueiros, palmeiras e outras árvores da Mata Atlântica de perfil magnífico transforma-se em coroa real em silhueta contra um globo de vermelho ardente, à distância de um braço. E nesses cinco a sete minutos, desce a encosta relvada do hotel Marinas e a escada Indiana Jones do estabelecimento uma horde de turistas sedentos pelo Pôr do Sol na Lagoa. Tendo a creperia apenas algumas espécies-de-mesa e respectivos toucos rebenta-nádegas, a horde que já não tem mesa não se aborrece e dedica-se ao que foi ali fazer: ver o por do sol atrás dos coqueiros de Guaraíras e judiciosamente fazer o back up da experiência em memória digital, não vá a verdadeira falhar. Os cinco a sete minutos de posicionamento fotográfico e prática contemplação da paisagem culminam num coreografado e diariamene encenado apoteótico final em contagem descrescente até ao momento em que o globo ardente esconde o seu último arco atrás dos coqueiros, momento em que explode em paralela apoteose no ar carregado do fim da tarde a “Primavera” d’”As Quatros Estações de Vivaldi”. É surreal mas admito que as reacções são positivas, tirando os ocasionais sustos com os primeiros acordes de senhoritas mais impressionáveis. Nestes cinco, sete minutos, a creperia está apinhada de gente, não se vê sequer as tábuas deformadas do chão e sinto nas costas o rabo de alguém que ficou em pé e claramene não cabe totalmente no local onde escolheu posar para a foto. É navio de refugiados do Haiti, um pesadelo da protecção civil. A multidão excitada empurra-se e capta naqueles minutos de magnífica beleza milhares de fotografias e vídeos, e imediatamente se maravilham quando as revêem de seguida pelo lcd da máquina. Rebolam alegremente na sensação de saciedade e vitória por agora possuírem aquele por do sol, têm provas e poderão vê-lo sempre que quiserem, e mostrá-lo aos amigos. A maioria irá partilhá-lo numa rede social, encontrar saudoso consolo eternizando-o no seu desktop ou emoldurá-lo num canto da sala até ganhar pó. Na expectativa salivante de quem acabou de capturar um tesouro – em detrimento, como sempre parece, do viver aquele momento, de inigualável beleza fascínio e carga emocional e espiritual. Mas não incomodam nem chateiam, só ocupam espaço e fazem barulho, mas por pouco tempo. Estão todos felizes e já em retirada, felizes e simpáticas piranhinhas entorpecidas pelo frenesim e pelas barrigas cheias de pixels, entram ordeiramente nas carrinhas que os levarão de volta aos seus hoteis.
Quando a “Primavera” expira finalmente o último acorde, já só restam os sentados, os que chegaram antes da hora de ponta do lusco fusco, que agora sente o dobro do prazer, pelo sossego, pela renovada cor da água, que oferece novo espectáculono seu movimento constante e pelos seus crepes, que finalmente chegam. A escolha é grande e consiste em pequenas orgias entre doces iguarias tradicionais, como a goiabada ou o doce de leite, e sabores salgados, como queijo, coalhada ou frango, e ainda frutas, obviamente tropicais, sob a enganosa decência de um crepe finíssimo e a simplicidade sublime de um topping de geleia ou chantilly. O mata-bicho ao qual dediquei exclusividade após aturada pesquisa in loco é o Cartola, uma perfeita união entre a banana tipo-papa-doce-com-grumos, queijo de cabra coalhado e uma nuvem espessa de canela por cima. Periclitante sobre as tábuas da mesa, o copo alto de sumo de goiaba, fatidicamente com açúcar a mais, mercê da mão generosa de quem o prepara.
Levitando no momento, sem o peso do mundo, iço a primeira garfada de Cartola à boca em êxtase expectante e sentindo a saliva inundar-me a boca como o mar a lagoa, enterro os dentes naquela felicidade empapada protegida apenas pela resistência convicta no ponto certo da massa, e enquanto mastigo sinto os sucos de crepe desfeito escorrerem pelos dentes e invadindo o palato e materializando uma pátina de canela nos dentes, descobertos agora num inevitavel sorriso de olhos semi-abertos, trespassados por um sentido gemido de prazer. Estremeço, olho para o outro lado da mesa, e sinto-me real e fisicamente feliz por estar viva.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A beber gin tonic com o elefante

Parece impossível. Preciso de uma passagem precisa dos Contos do Gin Tonic, do Mário Henrique Leiria, e nada. Nem uma passagenzinha. Encontrei a rima da nêspera que estava deitadinha à espera e, obviamente, páginas biográficas e, sobretudo, bibliográficas - o que me deixou a salivar, confesso. Na verdade, leio e releio cada estocada em forma de conto desta hilariante carga de profundidade subversiva há 1000 anos :), e até acho que um tom daquela negrura rubbed-off on me - num plano de percepções mais do que manifestações, entenda-se. Li sempre o mesmo exemplar, de uma das primeiras edições, comprado já rabiscado e devidamente dedicado numa feira por um amigo especial da minha irmã, que lho emprestadou. Ela saiu e deixou para trás os livros, para ela, talvez, coisa de miúda solteira, e o Gin e os seus magníficos Contos integravam o espólio. E digo com alguma tristeza, logisticamente imposta, que fiz o mesmo: saí e deixei os meus livros. Volta e meia, resgato alguns. Vou almoçar e regresso a casa com dois ou três velhos amigos, que se juntam em lugares nobres aos camaradas mais novos, que entretanto já povoaram cada estante e prateleira da casa. Os mais especiais. Mas tenho saudade de todos. Incluindo, voltando ao busílis, o meu exemplar do referido impropério intelectual. Dizia eu que já me chegou e velho já seria só no tempo em que está nas minhas mãos. E com muita rodagem: desde cedo com galopantes sinais de decadência, as páginas voaram sem ordem específica em muitas e muitas noites da minha adolescência e early-twenties. Conhecia os Contos de cor, portanto deleitava-me, com a expectativa e com a acção, como a escolher bombons de uma caixa, o que me apetecia ler. E outro. E outro.*Até o cansaço atenuar a minha ansiedade juvenil. 
A partir de uma certa altura, as páginas começaram a voar literalmente. Todo o abre e fecha, dobra, sublinha, marca, dorme debaixo da almofada, e geral bom e digno uso para um livro teve reflexo na sua integridade estrutural. Mas não não foi isso nem os simples 20, ou 30, ou, agora, 40 anos de gloriosa existência que explicam o estado geral de miséria do exemplar.
Já trazia traças. Ou o que seriam traças, pois o pobre livro foi voraz, penosa e completamente devorado ao longo dos anos. Começaram buraquinhos numas páginas, mais páginas e mais buracos e buracos maiores e 20 anos depois o livro desapareceu.
Nunca vi as traças. Nenhum dos outros livros, com os quais sempre esteve em contacto, teve o mesmo problema.
E para que é que eu precisava da passagem, afinal? Às vezes, com quase qualquer livro, acontece-me ser só porque sim, porque calhava mesmo bem ler aquele bocadinho naquele momento. Mas hoje surgiu por associação a alguém (curiosamente, a minha irmã) que assinalava a perda de uma ovelha no facebook (não interessa). E surgiu-me a imagem do elefante desaparecido, que depois do colapso, entre a confusão da tragédia, surgiu na varanda, a beber gin tonicos, junto à cadeira de palhinha, que também tinha desaparecido. Disse-lhe que se calhar a ovelha dela estava com o elefante desavergonhado e vim para aqui.**

*Outros livros combateram nesta luta, como capacetes azuis numa missão de peacekeeping que durou anos. O Werther, uma antologia do Neruda e outra do Eugénio de Andrade, O Principezinho, entre outros, envelheceram ao meu lado, na mesa de cabeceira.
** Reconquistar o blog O menino e o caixote, que já tivera no passado e apagara, juntamente com todo o seu conteúdo (nem me lembro qual, devia ser bom...). Fica então este renascido menino e reciclado caixote um depositório das minhas histórias com livros. (Dito assim parece parvo. Mas não encontro outra forma, é isto mesmo.) Naturalmente, O Menino e o Caixote é o título de um dos Contos do Gin Tonic.