Olhando para um qualquer mapa de pequena escala, Tibau do
Sul, Rio Grande Norte, fica mais ao menos à latitude de Kinshasa, Zaire, do
outro lado do Atlântico. Latejantemente famosos pelos seus skectchs e textos
cómicos, os Gatos Fedorentos colocaram o nome de Kinshasa no vocabulário de
qualquer jovem com televisão e um sentido de humor em Portugal através da
rábula sobre um empresário, não da noite mas do lusco-fusco – alegadamente
cinco a sete minutos de grande potencial de divertimento, como comprovava o
caso de Kinshasa, capital de nível mundial onde a indústria do lusco-fusco
gozava de franco desenvolvimento.
Curioso, reparo eu, enquanto desespero muda com os últimos
raios de sol às 17h de um dia de Janeiro e com os bafos quentes emanados pelo
mapa que abre O Vice-Rei de Ajudá,de Bruce Chatwin, que repousa numa mão adormecida,
enquanto a outra segura só porque sim uma chávena de chá que já esteve quente. Também
em Tibau do Sul, logo ali, na margem oposta à mais pequena largura de
Atlântico, o lusco-fusco representa um momento especial do dia e, obviamente,
um pretexto para fazer negócio.
A creperia da Lagoa de Tibau consiste numa cabana com
esplanada, totalmente em madeira, e ergue-se com optimista placidez sobre a
água da lagoa numa estrutura precária encostada à ravina de areia e de peso
assente em estacas de madeira que perfuram a lama salobra e vão sobrevivendo à
vida submersa – pois o nível da água da lagoa tem subido nos últimos anos – e
às fortes correntes das marés que empurram fora e dentro as águas da lagoa para
o mar, através da abertura que fica a algumas centenas de metros da creperia,
para leste. Sentada na esplanada – chão de madeira, mesas tortas de tábuas
imperfeitas e bancos bamboleantes de madeira igualmente irregular, vendo a água
debaixo dos pés através dos espaços entre as tábuas carcomidas do chão e toda a
extensão da lagoa, desde a entrada ao mar até ao afunilamento que desemboca
numa zona mais larga, com mangais, praias, pequenas ilhas, aves –, ignoro
‘brasileiramente’ os abanões da estrutura a cada onda que bate, barco que
atraca no ancoradouro mesmo ao lado ou pessoa de maior estatura que se mexa ou
arraste um banco, e começo a salivar no instante e que a garçonette me entrega
a carta de crepes e sumos. Qualquer lanche na creperia é mágico: o cenário é
idílico e chama-nos para um dia seguinte de descoberta. Os crepes, uma
maravilha. Mesmo a calhar, especialmente depois de um dia de praia, alimentado
apenas a fruta fresca cortada e aguinha de côco. Mas mais que os crepes ou a
visão e a tranquilidade do corpo de água, magnífico, reluzente com o sol do fim
da tarde, irrequieto, sempre visivelmente maré acima ou maré abaixo, barcos de
pescadores rústicos, aves de aspecto esguio e eterna pose fotogénica e um
ocasional golfinho a passar (sim, tenho uma foto), é a visão da outra margem da
lagoa, mais precisamente de uma pequena península que alimenta o famoso
lusco-fusco da Lagoa de Guaraíras. À medida que o sol se aproxima do seu
leito,mesmo por detrás da ponta proeminente da península, a cobertura de
coqueiros, palmeiras e outras árvores da Mata Atlântica de perfil magnífico
transforma-se em coroa real em silhueta contra um globo de vermelho ardente, à
distância de um braço. E nesses cinco a sete minutos, desce a encosta relvada
do hotel Marinas e a escada Indiana Jones do estabelecimento uma horde de
turistas sedentos pelo Pôr do Sol na Lagoa. Tendo a creperia apenas algumas
espécies-de-mesa e respectivos toucos rebenta-nádegas, a horde que já não tem
mesa não se aborrece e dedica-se ao que foi ali fazer: ver o por do sol atrás
dos coqueiros de Guaraíras e judiciosamente fazer o back up da experiência em
memória digital, não vá a verdadeira falhar. Os cinco a sete minutos de
posicionamento fotográfico e prática contemplação da paisagem culminam num
coreografado e diariamene encenado apoteótico final em contagem descrescente
até ao momento em que o globo ardente esconde o seu último arco atrás dos
coqueiros, momento em que explode em paralela apoteose no ar carregado do fim
da tarde a “Primavera” d’”As Quatros Estações de Vivaldi”. É surreal mas admito
que as reacções são positivas, tirando os ocasionais sustos com os primeiros
acordes de senhoritas mais impressionáveis. Nestes cinco, sete minutos, a
creperia está apinhada de gente, não se vê sequer as tábuas deformadas do chão
e sinto nas costas o rabo de alguém que ficou em pé e claramene não cabe
totalmente no local onde escolheu posar para a foto. É navio de refugiados do
Haiti, um pesadelo da protecção civil. A multidão excitada empurra-se e capta
naqueles minutos de magnífica beleza milhares de fotografias e vídeos, e
imediatamente se maravilham quando as revêem de seguida pelo lcd da máquina.
Rebolam alegremente na sensação de saciedade e vitória por agora possuírem aquele por do sol, têm provas
e poderão vê-lo sempre que quiserem,
e mostrá-lo aos amigos. A maioria irá
partilhá-lo numa rede social, encontrar
saudoso consolo eternizando-o no seu desktop ou emoldurá-lo num canto da sala
até ganhar pó. Na expectativa salivante de quem acabou de capturar um tesouro –
em detrimento, como sempre parece, do viver aquele momento, de inigualável
beleza fascínio e carga emocional e espiritual. Mas não incomodam nem chateiam,
só ocupam espaço e fazem barulho, mas por pouco tempo. Estão todos felizes e já
em retirada, felizes e simpáticas piranhinhas entorpecidas pelo frenesim e
pelas barrigas cheias de pixels, entram ordeiramente nas carrinhas que os
levarão de volta aos seus hoteis.
Quando a “Primavera” expira finalmente o último acorde, já só
restam os sentados, os que chegaram antes da hora de ponta do lusco fusco, que
agora sente o dobro do prazer, pelo sossego, pela renovada cor da água, que oferece
novo espectáculono seu movimento constante e pelos seus crepes, que finalmente
chegam. A escolha é grande e consiste em pequenas orgias entre doces iguarias tradicionais,
como a goiabada ou o doce de leite, e sabores salgados, como queijo, coalhada
ou frango, e ainda frutas, obviamente tropicais, sob a enganosa decência de um
crepe finíssimo e a simplicidade sublime de um topping de geleia ou chantilly.
O mata-bicho ao qual dediquei exclusividade após aturada pesquisa in loco é o
Cartola, uma perfeita união entre a banana tipo-papa-doce-com-grumos, queijo de
cabra coalhado e uma nuvem espessa de canela por cima. Periclitante sobre as
tábuas da mesa, o copo alto de sumo de goiaba, fatidicamente com açúcar a mais,
mercê da mão generosa de quem o prepara.
Levitando no momento, sem o peso do mundo, iço a primeira
garfada de Cartola à boca em êxtase expectante e sentindo a saliva inundar-me a
boca como o mar a lagoa, enterro os dentes naquela felicidade empapada protegida
apenas pela resistência convicta no ponto certo da massa, e enquanto mastigo sinto
os sucos de crepe desfeito escorrerem pelos dentes e invadindo o palato e
materializando uma pátina de canela nos dentes, descobertos agora num
inevitavel sorriso de olhos semi-abertos, trespassados por um sentido gemido de
prazer. Estremeço, olho para o outro lado da mesa, e sinto-me real e
fisicamente feliz por estar viva.
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